segunda-feira, 28 de setembro de 2015

LIVRO: DIANTE DA DOR DOS OUTROS - SUSAN SONTAG


Sontag, Susan. Companhia das Letras, 2003
107 páginas
Tradução: Rubens Figueiredo
Título Original: Regarding the pain of others

Trata-se de um ensaio sobre a questão da fotografia sobre temas que chocam, fotos de guerra,conflitos, e sobre a questão ética e efeitos de suas publicações. 

Sontag nos traz um percurso histórico desde o tempo dos desenhos como Goya em relação a invasão da Espanha pelos franceses até os dias atuais. Os primeiros fotógrafos de guerra, as fotos tiradas no local e as que são encenadas. Ela se questiona qual seria a função e a necessidade de mostrar ao público estas fotos. 

Com a recente publicação da foto do garotinho sírio morto numa praia que foi veiculada em todos os jornais e redes sociais, é uma questão importante. Sontag levanta a questão também do direito da família, mas sem deixar de frisar que estas questões normalmente surgem quando se trata de alguém branco e ocidental, por que ninguém questiona isto quando se trata de uma foto de uma menina morrendo de fome na Etiópia, por exemplo. 

Como reagimos diante da dor do outro? estaremos realmente insensibilizados devido ao excesso de veiculação de imagens? ou as imagens ainda podem chocar e levar a ação? A foto das crianças fugindo de uma aldeia no Vietnã resultou num protesto maior contra esta guerra e acelerou seu final. 

Eu pessoalmente acho que é necessário que a verdade surja, que seja veiculada, para nos tirar do comodismo, apesar de que sei que quando se está em segurança o efeito não é o mesmo do que para aquele que está vendo ou vivendo o que a foto nos traz. Mas o ocultamento dos fatos também não é bom. Por outro lado um dos pontos é que muitas vezes mudamos de canal ou deletamos a foto porque não podemos fazer nada a respeito. O que eu não concordo é que nos ocultemos sob a ilusão de que isto primeiro só acontece lá longe, e segundo que ignoremos estes fatos tristes e dolorosos. Concordo que provavelmente a foto não traga grandes mudanças, mas eticamente falando, você já não pode se desresponsabilizar sob a ignorância do fato. 

A foto do pequeno sírio resultou em vários protestos na Europa para que os países acolhessem os emigrados, refugiados. 

Um outro ponto importante levantado por Sontag é a questão do reconhecimento pelo outro da dor que se sente. Quem sofre quer ser reconhecido, e não consolado pelo fato de outro sofrer tanto ou mais que ele, precisa do crédito disto pelo outro. Que seu sofrimento não seja banalizado, exemplificado, mas visto e reconhecido. 

Quem não está numa guerra e nunca passou por ela não consegue nem mesmo pela imaginação saber o que é isto, e na maioria das vezes nada podemos fazer, mas não podemos nos ocultar sob isto. 

Susan Sontag nasceu em 1933 em Nova Iorque, EUA e faleceu em 2004 na mesma cidade. foi uma escritora, crítica de arte e ativista. Recebeu o prêmio National Book Award de 2000 pela ficção e em 2003 o Prêmio Princesa das Astúrias. 

LIVRO: A CERIMÔNIA DO ADEUS seguido de Entrevistas com Jean-Paul Sartre (Agosto - Setembro1974) - SIMONE DE BEUAVOIR


Beauvoir, Simone. Nova Fronteira, 1982
578 páginas
Tradução: Rita Braga
Título Original: La Cérémonie des adieux suivi de entrètiens avec Jean-Paul Sartre (Auôt-septembre 1974)

Na primeira parte deste livro Simone de Beauvoir relata os últimos dez anos de sua vida com Sartre antes de sua morte. É um relato pungente e belíssimo, onde corajosamente ela fala sobre o que sentiu, como assistiu ao fim de seu companheiro de mais de 45 anos. É corajoso porque poucos são os que realmente olham de frente a finitude da vida e tudo que isto acarreta, principalmente ao corpo, a degradação deste corpo, mas um corpo que sustenta uma mente lúcida, apesar de que Sartre sofreu de problemas de esquecimentos e delírios em determinados momentos. Sua cegueira que o impedia de ler, ele até escrevia, mas já não podia ler o que escreveu, e obviamente a letra já não era como antes. O cansaço que sentia, as crises. O medo que ela sentia, suas preocupações e ter que finalmente enfrentar o momento onde ele já não estaria ao seu lado como foi durante toda sua vida desde a juventude, pois mesmo não morando juntos, e mantendo amores que eles chamavam de necessários, nunca se largaram. Após a morte de Sartre ela chegou a ser hospitalizada. 

A segunda parte são as entrevistas que Simone fez com Sartre para que ele falasse sobre sua vida, suas idéias, seus livros e seu engajamento político. Simone desejava com isto dar voz a Sartre, inclusive para que mal entendidos se dissolvessem, e também para ter a garantia deste relato, pois há um filme com entrevistas com Sartre já no final de sua vida que já assisti e postei aqui no Blog, mas ela na época não tinha certeza de que o mesmo seria exibido. De minha parte, apesar de ter gostado muito do documentário, prefiro o relato impresso neste livro, é mais íntimo, mais delicado e ao mesmo tempo mais profundo. A inteligência de ambos é notória, e Simone não deixa muito espaço para que Sartre possa se enganar a si mesmo, ou fazer uso da má-fé, ela o interroga, o questiona, e volta a carga. Acompanhamos desta forma como surge o Sartre escritor, filósofo, político e também o homem, e também as mudanças que ocorreram que o fizeram em alguns pontos mudar ou ampliar seus pensamentos. 

Vale a pena ler para quem se interessa pelos dois assim como pela filosofia. Recomendo!

Simone e Sartre 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: ÍRISZ: AS ORQUÍDEAS - NOEMI JAFFE



Jaffe, Noemi. 1ª ed. Companhia das Letras, 2015
222 páginas

Um belíssimo livro sobre traumas, sobre falta, sobre como construir uma história para dar conta de uma incompreensão sobre sua origem. 

Írisz foge da Hungria após o fracasso do levante contra a União Soviética, ela vem para trabalhar no Jardim Botânico em São Paulo onde conhece Martin. Através de seus relatórios para ele aos poucos ela nos conta sua história. O desconhecimento do paradeiro de seu pai que sua mãe queria acima de tudo esquecer, sua desilusão com o levante em seu país, sobre Imre, o homem que ela ama e que não quis deixar o país em função de um ideal e um sonho. Aos poucos ela vai questionando tudo, lidando com sua culpa por ter deixado a mãe doente e Imre e vindo para o Brasil, culpa esta que ela sustenta, sem se deixar abater por ela. 

Írisz constrói uma história, uma ficção para compreender seu pai, e também sua mãe. Ela aprende a ler nos silêncios, nos olhares, nos gestos, o que sua mãe obstinadamente esconde dela sobre seu pai. É a busca de sua origem, de sua filiação, que ela elabora, onde podemos ver acontecendo numa vida o que a psicanálise tenta construir numa análise. 

Por outro lado temos Martin, que abriu mão de tudo em prol do comunismo. Nunca se casou, não teve filhos, viveu em função deste ideal e que agora também desmorona, principalmente com as notícias que chegam do massacre em Budapeste. A idealização que se desmonta, a desidentificação a algo, tudo aparece nos escritos de Martin, cartas que ele escreve para Írisz. 

Há uma terceira voz, que seria como o coro grego, que surge no meio da leitura nos dando outras informações. E é belo de acompanhar as metáforas de que Írisz se utiliza com as orquídeas para se explicar, se compreender. 

Um livro profundo, bonito, muito bem escrito. Recomendo!!

Noemi Jaffe nasceu em 1962 em São Paulo. 

LIVRO: O MAPA E O TERRITÓRIO - MICHEL HOUELLEBECQ


Houellebecq, Michel. Record, 2012
399 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: La carte et le territoire

Este é o segundo livro que leio de Houellebecq e noto que há pontos que se repetem em relação ao outro - Submissão - já postado aqui no Blog.

Primeiramente o protagonista, um homem solteiro, que mora sozinho e que tem  dificuldades de se relacionar com o outro. O distanciamento dos pais, ser inapto para o amor, a sexualidade, e um mundo moderno com suas supostas vantagens que acabam sempre não o sendo, o solitário, o isolamento. Outra característica é que o autor costuma colocar como personagens pessoas públicas e que ainda vivem, mas em forma de ficção, nem sempre correspondendo à realidade, e neste livro ele coloca a si próprio, o escritor Michel Houellebecq é um dos personagens. 

Neste livro ao invés de François, um professor, temos Jean Martin, um artista plástico, que mora sozinho em Paris e tem seu pai já com certa idade que ainda mora na antiga casa da família. Após se aposentar, era um grande arquiteto, resolveu ir morar numa casa de idosos e finalmente optou pelo suicídio assistido que é permitido na Suíça. 

Jean tem vários momentos em sua arte, a fotografia, a pintura à óleo, mas o que nunca imaginou é que um dia seria famoso e que suas telas valeriam fortunas. Tem uma relação amorosa com Olga, uma russa que está na França e que depois retorna ao seu país, ela o ama, porém ele em momento algum tem um gesto para retê-la ou pensar em ir com ela. Simplesmente deixa acabar. 

É um retrato da modernidade, do vazio, da melancolia, onde as relações perdem seu verdadeiro sentido e são apenas vividas no momento sem criar laços. O mundo da arte, as frivolidades, o dinheiro. Um dos principais pontos de Houellebecq em seus livros é o mercado de consumo e neste livro vamos encontrar várias passagens onde diante de algo vital para a existência se dilui em pensamentos fúteis, em análises sem profundidade. 

O que marca no livro é perceber que Jean se torna um artista famoso e vale muito dinheiro, porém, será arte mesmo o que ele faz? ou será o merchandising que o tornou famoso? E ele ao invés de se pavonear com isto e viver a fama se isola cada vez mais. Não posso deixar de pensar que quando um artista dá seu suor e cria uma obra ele não pode ficar indiferente, há algo de produzido neste boom pelas obras de Jean e que não foi ele quem fez isto. 

Apesar de ser este o livro que ganhou o Prêmio Goncourt, eu prefiro Submissão, que veio depois, onde a realidade do mundo moderno se apresenta com questões muito atuais, sendo que este O Mapa e o território, conta uma história que nos mostra o retrospectivo, a diferença que podemos imaginar entre o que foi e o que é. Entre o antes do mundo do consumo e o de hoje. 

Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França

terça-feira, 15 de setembro de 2015

LIVRO: DIÁRIO DE UM ANALISANDO EM PARIS - CLAUDIO PFEIL



Pfeil, Claudio. 1ª ed. Zagodoni, 2013
192 páginas

Um bom livro para quem quer compreender o básico da psicanálise. De uma forma leve e até mesmo divertida o autor nos conta sobre sua passagem por Paris como estudante de Filosofia e depois de Psicanálise e sobre sua análise.

O livro é leve e apesar de se utilizar dos termos psicanalíticos, Pfeil os traduz, seja através de exemplos do cotidiano e de sua vivência na análise ou através de uma explicação que é viável para quem é leigo no assunto. 

Um bom livro introdutório no assunto e que acho muito bom ter sido escrito, pois muitas vezes para quem está iniciando seu percurso é difícil se confrontar com termos que são usados na linguagem cotidiana, mas que para a psicanálise tem outro significado. Pfeil nos conduz através destes termos e também fornece uma pequena ideia do que seja uma análise lacaniana. 

Outro mérito do livro é mostrar que uma análise é algo que liberta, como ele mesmo diz o divã não é para se deitar e dormir, mas ao contrário, é para despertar. Um percurso profundo que mesmo que seja doloroso nos possibilita melhor viver. 


Claudio Pfeil é doutor em filosofia pela Sorbonne e mestre em Psicanálise pela Université de Paris 8. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: MINHA MÃE - 2015



Direção: Nanni Moretti - 2015
Duração: 107 min
Título Original: Mia Madre
País: Itália - França

Um filme sensível sobre uma mulher, Margherita (Margherita Buy) diante de todos os desafios que uma vida impõe. Diretora de cinema está iniciando as filmagens de um filme que tem como protagonista um astro americano, Barry Hughins (John Turturro). Por outro lado sua vida pessoal não está fácil. Acaba de se separar de seu companheiro, tem uma filha adolescente, e sua mãe (Giulia Lazzarini) está internada no hospital. O contrapeso é seu irmão Giovanni (Nanni Moretti) que está ao seu lado diante de todas estas situações difíceis, principalmente a questão da mãe.

Margherita me parece viver em conflito com o que deseja e o que faz, tem dificuldades em se relacionar com os outros afastando-os, mas ao mesmo tempo se sente só. Ela está tão focada em si mesma que nem toma conhecimento que sua filha esteve perdidamente apaixonada e que sofreu muito com isto, o que acabou interferindo em seus estudos. Quando fica sabendo disto através de sua mãe, ela reage mais preocupada com o fato dela não ter se apercebido do que com o sofrimento que a filha enfrentou. 

Sua mãe é uma doente terminal, ela está morrendo. Margherita não consegue lidar com isto. Através de suas lembranças ela vai se culpando ao mesmo tempo que não consegue aceitar a velhice e a doença de sua mãe. Isto fica nítido na cena onde sua mãe que quer ir ao banheiro e deseja fazê-lo sem a ajuda de enfermeiras ou o uso da cadeira de rodas não ultrapassa os três primeiros passos e é vencida pelo cansaço. Margherita não consegue aceitar isto. O ambíguo é a recordação de uma cena onde sua mãe insiste em dirigir seu carro e ao estacionar acaba esbarrando no da frente levando Margherita a ter uma atitude autoritária, rasgando a carteira de habilitação da mãe, com isto considerando-a inapta para continuar a dirigir. Não lhe passa pela cabeça que sua mãe é um sujeito e que pode arcar com este pequeno incidente. Para encerrar de vez com isto Margherita simplesmente destrói o carro jogando-o várias vezes contra a parede.

O filme é sobre o crescimento desta mulher que confrontada com várias questões difíceis ao mesmo tempo, seja no trabalho onde ela deve lidar com um ator que não se deixa dominar por ela, como sua equipe que acaba sempre abaixando a cabeça, seja com a doença da mãe, seja com seus relacionamentos amorosos, seja com uma filha adolescente. 

Giovanni está ali para que tudo não fique trágico demais, apesar de que ele também sofre com a questão de sua mãe, e tem que fazer escolhas em sua vida, mas ele as faz. Ada,a mãe, é justamente o oposto da filha, sempre soube estar próximas as pessoas e ser amada por elas. Parece-me que a identificação da filha com a mãe é pelo seu oposto, como se ela tentasse ser diferente, mas ao final ela irá perceber o quanto as lições de sua mãe foram fundamentais para que ela possa viver melhor, sem precisar ser igual a sua mãe. 



Nanni Moretti nasceu em 1953 em Brunico, Itália 

DOCUMENTÁRIO: FOUCAULT X FOUCAULT - 2014



Direção: François Caillat  2014
Duração: 53 min
Título Original: Foucault contre lui-même
País: França

Muito bom este documentário para nos dar um panorama geral sobre quem foi Michel Foucault. Foi professor do College de France o que lhe dava uma posição e status, porém soube utilizar-se desta posição para ir muito além e sair daquele lugar que requeria uma certa postura. Um homem complexo, que através da sua obra foi se contradizendo, o que pessoalmente acho extremamente rico uma vez que as coisas mudam, e nós mudamos, porque então se fixar em um único pensamento ou forma de ver o mundo? 

O documentário é uma coletânea de entrevistas com críticos e filósofos contemporâneos que reclassificam o legado de Foucault, numa tentativa de construir novas formas de pensar sobre a luta contra os mecanismos de dominação da sociedade. 

Sempre trazendo para o considerado digno e permitido aquilo que estava à margem: os loucos, os detentos, a sexualidade, estuda o passado mas é lido como se fosse o presente, sempre atual, ele se desdobra sobre si mesmo. Um ativista que ao lado de Sartre e Genet ia para as ruas, e isto me chamou a atenção sobre o que vivemos hoje  onde os intelectuais analisam e falam sobre as manifestações, mas não os vejo lá, junto ao povo, trazendo o povo para perto de si mesmos, apoiando. Foucault fala justamente disto, que é preciso ir lá, ver com seus olhos, viver a situação. 

Um eterno insatisfeito com suas próprias conclusões, sempre em busca de algo mais. Encantou-se com a Califórnia e seus jovens, a liberdade que viu ali. Vindo da França, onde supõe sempre ser o país da liberdade, mas que contraditoriamente a isto, o que vemos mesmo são os "flics", a polícia sempre na rua e contendo as manifestações, batendo e prendendo, nos EUA ele encontra um outro mundo, pelo menos para seus olhos naquela época. 

Que sirva de grande exemplo contra o conformismo e o que vou chamar de "confortismo".


François Caillat estudou filosofia. Dirigiu curtas e se voltou para os documentários. 

FILME: NINA! - 2014



Direção: Rafael Botta - 2014
Duração: 10 min


Curta-metragem de Rafael Botta, diretor bauruense é uma mostra do que sente uma mulher intensa e apaixonada. Toda a dor e angústia de uma separação. Ela está desnuda, despiu-se de todo o imaginário amoroso e cai num real de dor e também de paralisação de vida. A cena onde ela caminha pela rua vestida apenas com um casaco e nua por baixo, nua como está naquele momento. 

Ao nos apaixonarmos nos perdemos, mas estamos no outro, onde vemos ilusoriamente o que desejamos, vemos a nós mesmos. E entre este se perder e se achar paralisamos. Sensação de completude que não suportamos. Nos sentimos dominados pelo outro, mas no fundo somos nós mesmos nos dominando, o outro não tem este poder. E vem o desejo de escapar disto, respirar. É quando nos sentimos tentados ao suicídio para que o outro morra, este outro que somos nós e que está em nós, e que não toleramos mais. Chorar! talvez seja a melhor forma para sair disto, pelo menos é um passo. O choro tira algo de nós, ele escorre, é salgado, mas é bom.

Nina (Renata Sarmento)  nestes curtos 10 minutos vive tudo isto, sozinha, a dor é somente dela. Mas quando ela resolve olhar pela janela.....

Li alguns comentários sobre o curta, e vejo que muitos interpretam esta olhada pela janela como sendo uma nova possibilidade que se mostra, talvez um novo amor, a volta por cima. Mas me pergunto: não seria recair no mesmo? e novamente viver tudo isto, porque como é difícil o amor, como é difícil viver um amor sossegadamente. E  então recomeçamos, a eterna repetição. Prefiro ver esta olhada pela janela como - não sou só eu, não estou tão sozinha assim, não sou eu quem tem um defeito, todos nós somos faltantes, e temos um vazio dentro de nós. Todos nós buscamos algo que pensamos ter perdido e que nunca tivemos, mas é justamente esta falta que nos move. Resta aprender que a paixão é ilusória, é uma tentativa de fazer com que 1+1 seja igual a UM. E não será!

Prefiro ver esta olhada pela janela como se defrontar com seu vazio e sua solidão, mas saber ao mesmo tempo que todos nós somos assim, e que ainda assim é possível conviver com o outro, amá-lo, desejá-lo, sem que com isto desapareçamos, sem que com isto fiquemos tão nus à mercê do nada que nos aflige. Podemos sim construir uma história com isto, contá-la, como neste curta.

Participação de Luiz Felipe Sobral.


LIVRO: GRANDE SERTÃO: VEREDAS - JOÃO GUIMARÃES ROSA



Rosa, João Guimarães. 20ª ed. Nova Fronteira, 1986
568 páginas

O que falar sobre esta grande obra prima que já não foi dito? Como exaltá-la mais? Prefiro falar da minha experiência de leitura deste grande livro, deste clássico da literatura brasileira.

Normalmente considerada uma leitura difícil, com muitos regionalismos, que para quem não é da terra, das Minas Gerais, do sertão, se torna muitas vezes um desafio. Sabendo disto optei por me lançar na leitura de corpo e alma, e acabei vivendo uma experiência nova para mim. Eu escutei o livro! Li o livro com os ouvidos, se é que isto é possível.

Talvez por ter passado por uma análise psicanalítica isto se tornou possível, não sei, mas o fato é que fiz isto de alguma maneira. Ouvi Riobaldo, atravessei com ele este Grande Sertão e suas veredas. 

Riobaldo elege um interlocutor, alguém a quem falar, para rememorar sua vida recontando sua história de jagunço nos sertões, e com isto reescrevê-la, dar-lhe outro significado, reconstruir sua história, fazendo a travessia de seus fantasmas. E qual o maior deles? o que rege sua vida? O pai. Filho bastardo, busca encontrar a lei, o pai que se reflete em Zé Bebelo, Joca Ramiro, o interlocutor, Medeiro Vaz, seu padrinho, no diabo. Busca de uma identificação capaz de lhe dizer quem é, busca inútil, mas que todos fazemos. 

Interessante o amor dele por Diadorim, que é uma mulher, mas ninguém o sabe. Melhor retrato de que sabemos e não queremos saber? O Olhar, outro traço que rege sua vida, onde ele reencontra o olhar de sua mãe. 

Li o livro com o ouvido, ouvindo este relato, esta construção de uma vida, seus medos, seus amores, suas dúvidas, o ódio, a alegria, ouvindo: Viver é perigoso! Travessia. 

João Guimarães Rosa nasceu em 1908 em Cordisburgo, Minas Gerais e faleceu em 1967 no Rio de Janeiro.

FILME: NOSTALGHIA - 1983



Direção: Andrei Tarkovski - 1983
Duração: 120 min
País: Rússia - Itália

Ganhador de três prêmios no Festival de Cannes de 1983 - Melhor diretor, Prêmio do juri ecumênico e Prêmio FIPRESCI. Foi indicado ao Palma de Ouro.

Tarkovski dedicou este filme à sua mãe. É seu primeiro filme fora da Rússia durante seu exílio na Itália. Ele mesmo não voltaria à Rússia e o filme fala também de como ele mesmo se sente.

O poeta russo Andrei Gorchakov (Oleg Yankovsky) encontra-se na Itália. Ele empreende uma jornada íntima e busca de si mesmo e de uma nova maneira de viver. Viaja pelo país em companhia de Eugenia (Domiziana Giordano) e chega a um vilarejo no norte da Itália, uma estação termal. Andrei está ali para pesquisar sobre a vida de um compositor russo, Beryózovsky (1745-1777) que viveu na Itália por vários anos até ser tomado por uma nostalgia de sua terra natal retornando. Porém, pouco tempo depois de retornar enforcou-se.



O filme fala sobre a nostalgia que acomete aos que estão longe de sua terra natal, da família, dos costumes, das tradições, da língua materna. Gorchakov encontra-se nesta mesma situação e o filme retrata seu estado mental, como se sente. 

Andrei vive uma situação difícil. Ele fica desorientado com o que vê, com a vida na Itália, principalmente com Eugenia, e não consegue incorporar estes novos momentos, estas situações ao seu passado, à sua história, e também não se liberta do passado, esta preso ali. Ele não consegue falar disto, não partilha seus sentimentos. O diretor Tarkovski chega a se referir ao que chama de "Apego fatal" dos russos à sua terra e origem. Isto me remeteu ao banzo, do povo Banto em relação à sua terra na África. 

O filme é dedicado à mãe de Tarkovski, à sua língua materna a qual ele está preso. É esta língua com todos seus laços afetivos que prende Gorchakov à sua terra. Somente nesta língua ele consegue constituir sua história, e ela está repleta da cultura, do cheiro, das paisagens, dos laços, colocando o exilado numa solidão imensa.



Andrei não responde ao interesse de Eugenia, o que ela não compreende e parte. Somente ao encontrar Domenico (Erland Josephson), considerado o louco da vila por ter mantido sua família durante sete anos presa em casa, ele começa a compreender o que sente. Num momento vemos no local onde mora Domenico - 1+1= 1. Sim, ambos fazem um. Estão presos, não estão ali e nem em outro lugar, onde estão? Andrei anseia pela totalidade da existência, mas não é capaz de encontrá-la, se é que ela existe. 

Já para Slavoj Zizek em seu livro "Lacrimae Rerum" nostalgia é um filme sobre a questão da mulher-mãe. Ele foca sua análise em Eugênia, histérica que tenta seduzir Andrei para satisfazer-se sexualmente e a imagem da esposa-mãe (Patrizia Terreno). Andrei rejeita a mulher histérica, tida como falsa e se apega a figura materna. 

De qualquer maneira em ambas as situações temos uma espécie de inércia, ou seja, ele não se move, quer de alguma maneira ficar no paraíso, retornar às origens, e portanto morre ao final. A última cena filmada na abadia de San Galgano em ruínas onde aparece a casa de sua mãe, a datcha e seu cachorro da infância, representa seu desamparo e solidão na Itália, a abadia que o envolve e seu desejo de retorno às origens, ao seu fantasma.




Andrei Tarkovski  nasceu em 1932 em Zavrazhye, na então União Soviética, hoje Rússia e faleceu em 1986 na França. 

FILME: O ABRIGO - 2011


Direção: Jeff Nichols - 2011
Duração: 120 min
Título Original: Take Shelter
Roteiro: Jeff Nichols 
País: Estados Unidos

Curtis (Michael Shannon) e sua esposa Samantha (Jessica Chastain) vivem numa pequena cidade de Ohio. Eles tem uma única filha com seis anos que possui uma deficiência auditiva. Apesar das dificuldades de conseguir ter os meios para ajudar a filha que precisa de uma cirurgia, eles vivem felizes e são até mesmo considerados um modelo de casal que tem uma vida boa pelos amigos. Até o dia em que Curtis começa a ter pesadelos com uma tempestade apocalíptica e fica obsessivo.

Além dos pesadelos, Curtis começa a ter visões, alucinações, como pássaros voando, mas a questão é que para ele isto é real, assim como seus pesadelos são premonitórios, um aviso. Mesmo assim ele procura ajuda, e vai visitar sua mãe que está internada por ser esquizofrênica. Durante um tempo ele esconde de Samantha o que está acontecendo, mas é impossível que ela não o perceba, uma vez que começa a ter um comportamento estranho e decide construir um abrigo no quintal para proteger-se e à sua família da tempestade que ele tem certeza vai acontecer.

Curtis começa a ir a uma psicóloga que o escuta, porém como é de um sistema de saúde conveniado, um dia ele chega e não é mais ela, é outro. Infelizmente esta interrupção acaba rompendo o processo ao qual ele já estava engajado. Seu melhor amigo não compreende o que está acontecendo com ele, e quando Curtis tem um pesadelo com este amigo que o atraiçoa, ele tem certeza disto, e pede seu afastamento de sua equipe o que gera no amigo um ressentimento que se transforma numa vingança, levando Curtis a perder seu emprego. Justo quando ele havia hipotecado sua casa novamente para construir o abrigo e a cirurgia de sua filha estava marcada, pelo convênio da empresa. 

Samantha o ama, e procura compreender e lhe dar apoio. Seu irmão chega com ares de mais velho lhe dando uma bronca, os amigos se afastam. Curtis além das alucinações se sente perseguido o que se evidencia em seus pesadelos quando seu cachorro o morde, seu amigo o agride, sua mulher o ameaça.



Percebe-se nitidamente a falta de preparo tanto no aspecto médico e psicológico como na sociedade em lidar com pessoas assim. E o interessante é que o final nos propõe algo até mesmo desanimador, uma vez que Samantha e a filha acabam digamos "contagiadas" pelo pânico, obsessão e delírios de Curtis. Isto me lembra claramente como uma paranoia se instala numa sociedade, como contaminando a todos, com algumas exceções que lhe escapam.



A cada um sua interpretação sobre o final do filme, alguns podem optar pela premonição, o transcendental, outros pela mente doente. Mas até que ponto um psicótico não está mais próximo ao real do que os outros? 

Curtis diante de seus pesadelos e visões no fundo tem medo, medo do histórico familiar, do que aconteceu com sua mãe. Ele oscila entre avaliar sua sanidade mental e o real de seu medo, do que sonha e vê. Ele receia  sua origem, não consegue e não tem um atendimento que o leve a falar, e reconstruir esta história. 


Jeff Nichols nasceu em 1978 em Little Rock, Arkansas, EUA.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

FILME: OS REFORMADOS - 2013


Direção: Bogdan Dreyer Dumitresco - 2013
Duração: 90 min
Título Original: A Farewell to fools
Roteiro: Anusavan Salamanian 
País: Romênia - Estados Unidos

Em uma aldeia da Romênia vive Ipu (Gérard Depardieu), considerado como louco, ele vive imaginando cenas heroicas de guerra e junto de Alex (Bogdan Iancu)  eles brincam de guerra. Alex é conhecido de um soldado alemão que gosta dele, e o deixa andar em sua motocicleta, mas desta vez quando o menino retorna o que ele encontra é o alemão morto, assassinado. 

Os alemães querem o culpado, como o delegado não consegue desvendar o que ocorreu, são colocados na praça da aldeia dez cadeiras, onde serão fuzilados as 10 principais autoridades da vila com seus familiares, caso não apresentem o culpado até as 5 horas da manhã do dia seguinte. 

As autoridades se reúnem para pensar, estão desesperados e com muito medo. É então que surge a ideia de convencer Ipu a se entregar como culpado. Liderados pelo pastor da aldeia Pai Johanis (Harvey Keitel) e sua esposa Margherita (Laura Morante) eles armam uma farsa para convencer Ipu. 

O filme é a farsa vista pelos olhos de Alex, onde se testemunha toda a comédia e o horror da condição humana, a manipulação, a encenação, as rixas entre eles mesmos e a presença de espírito do que é considerado louco, o único ali fora o garoto que é digno e ético. 


Bogdan Dreyer Dumitresco nasceu em Bucareste, Romênia

DOCUMENTÁRIO: SARTRE POR ELE MESMO - 1976


Direção: Pierre-André Boutang e Guy Seligmann - 1976
Duração: 187 min
Título Original: Sartre par lui même
País: França

O documentário nos mostra 03 horas de entrevistas com Jean-Paul Sartre respondendo a todas perguntas feitas sobre sua vida, sua obra, e seu percurso intelectual e político. Filmado em seu apartamento ou no de Simone de Beauvoir, estão presentes além dos dois, Jacques-Laurent Bost, André Gorz, Jean Pouillon, Marie Olivier, François Périer e Serge Reggiani. 



Sartre fala de sua infância com seus avôs, sua mãe, o casamento desta em segundas nupcias, sua vinda para Paris onde conhece Paul Nizan e em seguida Simone de Beauvoir, seus primeiros contatos com a filosofia e sua rejeição da psicanálise freudiana e do surrealismo em voga na época. Inicialmente Sartre não se interessa pela política, irá para Berlim em pleno nazismo e estudará a fenomenologia de Hegel. Será quando ficar preso num campo de prisioneiros que despertará para o mundo. Até este momento Sartre havia ignorado o nazismo, a guerra civil da Espanha, dedicando-se totalmente a escrita do "O ser o nada". Também publicou "A Náusea". 

Após escapar do campo de prisioneiros ele começa sua atuação política, inicialmente através do teatro, como a peça "As moscas" falando de forma simbólica sobre o regime de Vichy. Após a guerra sua obra se torna conhecida e célebre, o momento é oportuno, todos querem viver e esquecer a guerra. A França passa a respirar o existencialismo, é algo além da filosofia, se torna social. Sartre e Beuavoir fundam a revista "Temps Modernes", e passam a tomar parte ativa nos acontecimentos políticos, Sartre se torna um intelectual engajado, ativo. Ele fala sobre sua participação no partido comunista e sua saída, sobre a viagem à Cuba, sua militância sobre a questão da Argélia. Recusa o prêmio Nobel de literatura. E nos fala de maio de 1968.

O documentário é o percurso, a trajetória de vida de Jean-Paul Sartre e de todos os acontecimento políticos e sociais vividos por ele. Vale para conhecer além deste grande filósofo e escritor também toda uma época da história.

Pierre-André Boutang nasceu em 1937 em Paris e faleceu em 2008 na Córsega, França

Guy Seligmann